ringue
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desbravar o percurso. falar uma língua que não entendo, só arranho, arrisco. certa vez vi um caminhão de mudanças que se chamava CONFRONTO. era assim que estava escrito na carroceria, bem grande: MUDANÇAS CONFRONTO. a vida nunca mais foi a mesma depois desse contato. os outros caminhões que só carregam MUDANÇAS nas costas me parecem fracos, vazios, impotentes. me afeiçoei pelo confronto, faz um belo par com as mudanças, uma coisa sem a outra pode ser que nem aconteça. envolver-se no embate que a mudança exige, o corpo tomado de roxos, duzentos obstáculos até chegar o confronto e então não amarelar. você falou que eu só te ouvia quando você gritava, não pude fazer nada, fiquei surda gritando enquanto você tapava os ouvidos. é a batalha, você não comparece, você não entende. se o caminhão de MUDANÇAS CONFRONTO estivesse estacionado numa rua qualquer do seu trajeto numa segunda-feira de carnaval, ele não seria visto. sua vida continuaria a mesma, não seria um encontro, ele seria repelido pela sua ausência extrema no plano da realidade. não vou te escutar, pode gritar, mas estou agora dirigindo esse caminhão, o som do trânsito é alto, muitas coisas acontecem ao mesmo tempo. acelero, não tenho medo nem apego, o confronto acontece pra frente.
//// eis o protagonista. a foto da minha câmera analógica nunca existiu porque ela estava com defeito e só descobri depois. o registro é de uma amiga. é verdade, o caminhão se chama confronto, mas não é um caminhão de mudanças.1
a memória é um golpe
